quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Algum outro

Praia do ouvidor. Carro na beira, o mar estava tão perto que podia senti-lo.
Encostei-me no capô branco e embaçado pela maresia. Na areia, desenhei um coração com o pé esquerdo. Tentei arruma-lo com o direito. Assim repeti diversas vezes, tentando ajeita-lo, tentando consertar as dobras e linhas mal feitas. Cada vez que o fazia, ele diminua.

Como na areia, nosso coração funciona aqui dentro. Toda vez que caímos e tentamos cura-lo, fica menor. Fica mais difícil de se ver, de se encontrar. Perdido entre os grãos bagunçados. Exposto ao vento que o consome, as pisadas que o apagam, as tantas voltas que a vida nos dá, até que a tontura nos derrube.

E assim seguimos, na tentativa interminável de conserto. Na incansável busca for our souls mates. O sonho de "felizes para sempre". Pela necessidade de acordar pensando em alguém que não em si mesmo.

Lá se vão mais 24 horas e alguns rabiscos na areia da vida. Mais algumas tentativas, só mais duas ou três pra percebermos que quando ele realmente desaparecer é que entenderemos: Não há conserto.
Somente quando ele estiver tão pequeno a ponto de não o enxergarmos é que veremos o que está acontecendo. Não somos nós quem o desenhamos, consertamos e arrumamos. Há algum outro coração por aí.
Algum outro pronto pra nos ser emprestado. Dado, entregue, doado. Algum outro que complete os pedaços que a vida nos levou. Algum outro que também seja nosso.

16:37
08.09.2012
Praia do Ouvidor - SC

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Palavras

Gosto tanto de escrever que, às vezes, quando as palavras fogem, escrevo teu nome ao lado do meu.
Mas é só quando elas fogem. Eu juro.

Não digas que sou indecifrável.
Que quando me olhas não sabe o que há por trás do meu sorriso.
Eu sei que tu sabes, e tu sabes que eu sei.

O que eu não sei mesmo é o motivo pelo qual fogem.
Elas tem essa mania chata de ir embora toda vez que tu direcionas o olhar a mim.

Mas se de mim elas correm, por favor, não as falsifique.
Deixe que me mandem embora ou convidem pra um café ali na esquina.
Deixe-as me dizer que, na verdade, tu só não sabes como dizê-las. Tem medo delas.

Mas eu sei, amor. Eu sei da verdade. Nós somos muito mais do que apenas palavras.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Alguns copos

Foram alguns copos que me deixaram assim.
Alguns copos alcoolizados e cheios da verdade.

Foram eles quem te ligaram às 4 da manhã de ontem.
Foram eles quem te disseram meu amor.
Quem te contaram o que me aborrece.

Foram eles quem, por algumas horas,
me fizeram não lembrar de como gosto de olhar nos teus olhos.
Esquecer do teu riso e apenas procurar por outro.

Foram eles quem aumentaram a música até que as
lembranças sobre nós não fossem mais tão nítidas.

Foram eles que, na volta pra casa, me forçaram a sentar no chão da sala
e colocar a cabeça entre os joelhos.

Mas eles são só copos. Somente alguns copos carregados da verdade.
Copos apenas tentando dizer que era com você que a noite deveria acabar.
Era ao teu lado. Eles não me querem mais, os copos.

Alguns copos, amor. Só uns cinco ou seistentando lhe dizer que ainda estou aqui e, bem, talvez não demore tanto pra ir embora.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

124 verbos para viver feliz

Brigar e gritar. Servir e tomar. Fumar e beber.
Lutar e poder. Empurrar e puxar. Socar e tapear.
Voltar e deixar. Sentir e esquecer. Raiar e brilhar.
Radicalizar e fazer. Cantar e desafinar. Sair e ficar.
Chapar e comer. Escolher e acertar. Bater e aliviar
Dançar e pular. Respirar e lamber. Tocar e morder.
Sonhar e voar. Cozinhar e apreciar. Cheirar e tatear.
Desenhar e pintar. Sujar e limpar. Saber e conhecer.
Velejar e surfar. Lambuzar e lavar. Trair e desculpar.
Nascer e morrer. Batalhar e ralar. Correr e caminhar.
Vencer e perder. Conquistar e vibrar. Escutar e dizer.
Pedir e receber. Namorar e pirar. Absorver e abstrair.
Engordar e emagrecer. Dar e gostar Trabalhar e vadiar.
Acabar e começar. Olhar e desviar. Avistar e procurar.
Sorrir e rir. Ir e vir. Saltar e cair. Aprender e prosseguir.
Poupar e gastar. Acender e apagar. Chorar e gargalhar.
Bolar e fechar. Comprar e vender. Viajar e enlouquecer.
Sorrir e rir. Ouvir e falar. Odiar e amar. Transar e gozar.
Mexer e errar. Ler e escrever. Envelhecer e rejuvenescer.
Achar e encontrar. Levantar e continuar. Irritar e bloquear.

Viver, viver muito.



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Nossa maneira

Terça-feira, 5:22 da manhã. A insônia insistia em bater minha porta e tomar conta do meu travesseiro. Coloquei meus fones e fui até a minha sempre fiel companheira, a janela.
As coisas parecem só piorar e eu não venho fazendo muito pra que melhorem. A obscuridade do meu quarto iluminado apenas pela brasa do meu cigarro também não ajuda.
"Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito", cantou Rogério Flausino em meus ouvidos. Olhei para cima  e o céu estava mais laranja que de costume. O sol já estava vindo, lembrei de ti.

Lembrei de como tu costumava me tratar, de como me sentia segura ao teu lado, de como me fazia bem fazer parte da tua vida. Senti vontade de remexer meu guarda-roupa, arrumar as roupas mal dobradas, a bagunça de sempre. Os sapatos atirados e sujos ainda da noite de sexta passada. Mas senti mesmo vontade de te ver. De olhar nos teus olhos e explicar porque fui embora.

E por que diabos fui? "Em um casal, um dos dois sempre ama mais que o outro", tu me disseuma vez. Avistei a prateleira acima da minha cama e pude ver meu livro preferido. Tu deves saber qual. Me assustei com a saudade. Me assustei também com o que dissestes naquele dia 13 de março. Passaram-se mais de dois anos, passaram-se meses, dias e pessoas,  e o que não passou foi a minha lembrança do teu sorriso tímido. O que não passou foi o ponto de interrogação na minha cabeça, a pergunta que sempre me fiz: "Por que me disse aquilo?".

Ouvi um barulho no quarto ao lado, era minha irmã também importunada pela insônia. Minha porta se abriu e ela disse: "Que cara é essa?" Cara de saudade, Gabriela. Saudade boa, sem tristezas ou mágoas. Nós éramos assim. Seguimos por caminhos diferentes, sem ressentimentos. "Amor", lembro de quando tu me chamou assim um dia após nosso término e disse que não sabia se dirigir a mim de outra maneira. E, bem, hoje posso te responder o que há dois anos atrás não o fiz: Amor, não nos amamos mais ou menos, não nos amamos por igual, amamos apenas da nossa maneira.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Uma carta de amor

"Papai, você é meu herói", "mamãe, você é a melhor do mundo", escrevia eu em tantas cartas na época de colégio. Hoje, na faculdade, volto a dizer o que há muito tempo não digo: "Mãe, você é a melhor do mundo", "pai, você é meu herói".
Dizem por aí que criança não mente, mais do que qualquer um vocês sabem que mentirinhas eram as minhas preferidas quando menor. Não estou querendo dizer que mentia anos atrás, apenas quero que entendam: Hoje, essas duas simples frases fazem mais sentido do que nunca. Hoje, eu sei o que significam e sei que vocês dois, mais do que qualquer pessoa desse mundo, são merecedores de tais palavras.

Quando a gente é criança, nossos pais são nossas únicas referências, são como espelhos e bengalas. Nos vemos olhando para eles e, ao mesmo tempo, nos amparamos em seus braços. O afeto entre pais e filhos pequenos é natural. É da natureza amar algo que está sempre conosco nos cuidando e ensinando.
Pai, mãe, não os amo somente por serem meus pais. Não os amo somente por terem me posto neste mundo, me criado e educado. Amo-os por serem quem são. Amo-os pela honestidade que carregam, pela humildade que passam a todos, pela persistência que mostram ao mundo, pela beleza rara que poucos ainda têm: o amor sincero. Amor que vejo em cada abraço, em cada ida à Porto Alegre, em cada telefonema de saudade, em cada ruga de preocupação, em cada mensalidade paga, em cada briga e discussão. Amor esse que sei só poder encontrar em vocês.

Não é difícil falar de quem mais amamos, difícil é encontrar palavras que possam englobar tudo sem esquecer o tudo. O tudo que vocês significam.
Por todas as noites mal dormidas, por todo suor escorrido, por todas as histórias lidas, banhos dados, gasolina gasta, por todo estresse causado, por todos os fios brancos, quero lembrá-los, meus queridos: Eu estou aqui.
Chegará o dia em que os cabelos brancos não serão consequência de minhas façanhas, chegará o dia em que eu os darei banho, contarei histórias e os colocarei pra dormir. Mesmo que seja cedo pra dizer, que ainda não seja necessário, eu quero poder lembrar a vocês o quanto puder. O amanhã é incerto, a vida pode ser injusta, mas lembrem-se, o amor sempre vence. Se a decepção acontecer, a tristeza bater a porta e os obstáculos forem maiores que nós, não esqueçam nunca, nosso amor é maior que tudo isso.

Oito cidades. Um belo número para uma jovem de 19 anos. Sabem aquela história de ter amigos de infância? Um único colégio? Uma única casa? Pois é, coisas que não pude ter. E, bem, hoje posso afirmar com toda verdade dentro de mim, vocês são a minha casa, os meus amigos, os meus melhores amigos. Pai e mãe, acreditem, não me faltou nada nessa vida. E se faltou algo, foram apenas algumas palmadas. Obrigada por toda estrada que percorremos, por todos os lugares que passamos, por todas as dificuldades que enfrentamos. Não fosse isso, hoje, eu não seria quem sou. E querem saber mais? Volto a velha história de criança. Volto aos meus 5 anos de vida e digo: quero crescer e ser como vocês. Quero a bondade da minha mãe, a gentileza do meu pai, a personalidade e o caráter das duas pessoas mais incríveis de toda a minha, ainda curta, passagem por esse mundo.

Peço que esqueçam das vezes em que os decepcionei, das vezes em que os magoei com palavras ou atitudes. Porém, peço que sempre lembrem: Eu amo vocês!


terça-feira, 10 de julho de 2012

Tic-Tac cinematográfico

Um vazio apertado
Uma memória nunca existida

Insaciável procura no escuro
Aquela vontade suprimida

Desejo corrompido, escondido
Verdade oculta, talvez reprimida

Sente-se no sofá, meu bem. Chegou a hora de ver na tv o que sonhou para si mesma.
Puxe a coberta, sirva o copo com vodca e aperte play.

Não segure a emoção, somente as paredes dessa sala poderão ver o que sentes.
Deixe a angústia da incerteza bater aí dentro, pulsar em tuas veias.

Quando a música entrar e os créditos subirem você verá, meu amor, não passava de uma ilusão muito bem ilustrada. Não passava de um livro doce retratado por imagens bonitas. Não passavam-se de cenas fictícias.

E você, minha pequena, não está nelas mas, bem, não se esqueça, ainda tens tempo até a hora de teus  próprios créditos subirem.